Luta Livre parte de uma leitura crítica da ideia luta na tradição ocidental, historicamente organizada em torno de dicotomias como ganhar e perder, dominar e submeter-se. Este legado, intensificado pelos paradigmas da guerra e pela violência colonial, continua a moldar a forma como imaginamos o conflito no presente. Entendendo a violência como coisa constitutiva do mundo, em “Luta Livre” não se demoniza o combate. Procurando expansões na biologia, na mitologia Orixá e em certas lutas marciais, o projeto explora o conflito enquanto tensão, em vez de assimila-lo enquanto destruição e brutalidade.

Formalmente, Luta Livre procura apropriar-se do wrestling americano e dos seus excessos (corpos hipertrofiados, violência espetacularizada e narrativas maniqueístas) pensando-os através da lógica do drag. Por não procurar a verossimilhança mas operar num regime ditado pelo excesso, o wrestling amplifica os códigos que organiza. Nessa amplificação, acaba por revelá-los: a violência enquanto coreografia acrobática revela-se enquanto matéria prima de entretenimento de uma sociedade do espetáculo; o género, deixando de ser tácito e afirmando-se como performance e recorte de personagem, revela-se como a construção social que é.

Recusando a linearidade narrativa tradicional de um certo teatro literário, Luta Livre propõe ainda um espaço onde a produção de imagens cénicas possa comunicar sem depender da validação textual, privilegiando o desvio e a livre associação em detrimento do conflito. A distração é aqui entendida como forma de resistência à atenção disciplinada, à eficiência e à imediatez exigidas pelo capitalismo tardio.