Ciclo
Doce & Fresco
Set 2026 — Out 2026
Vamos deixar que o verão Doce & Fresco permaneça no calendário durante mais algum tempo. Não para suspender a necessária sucessão das estações, mas para contrariar um certo clima amargo e sombrio que, visto daqui, parece estar sempre ao lado (embora, na verdade, esteja muitas vezes sobre nós e entre nós).
Por isso mesmo, as sensações importam. Não apenas como contraponto à realidade material, mas como uma das formas através das quais a experienciamos e compreendemos. Para citar Timothy Morton, existem hiperobjetos que atravessam escalas materiais de espaço e de tempo, infiltrando-se na vida quotidiana de modos difíceis de apreender diretamente. Talvez a arte tenha precisamente a capacidade de lhes dar forma sensível: de os tornar tangíveis através de uma experiência háptica, somática e afetiva.
Tal como o doce e o fresco moldam prazeres, perceções, conhecimentos e, consequentemente, corpos e sociedades, também a arte se inscreve nos nossos corpos. A experiência artística pode oferecer instrumentos de atenção, de apaziguamento e de perspetivação perante as hecatombes que atravessam o mundo, não para as eclipsar, o que seria desejável se fosse possível fazê-las desaparecer, mas para aprofundar a consciência crítica que delas temos, intensificando as nossas posições e ações.
Doces que nem um quarteto feminino dos anos 80, frescos que nem uma publicidade a pensos higiénicos. A Rua das Gaivotas 6 recebe projetos de novos criadores na emergência de iniciar o seu percurso e novos projetos de criadores já calejados, mas que nem por isso perderam a frescura e a atualidade.
Num ciclo em que se concentram duas bolsas YEP – Young Emerging Performers, Matilde Cancelliere e Afonso Abreu têm tempo, espaço e carta branca para criar. Também Tiago Vieira nos apresentará mais um caldo bem cozinhado entre a enormidade de referências culturais, sociais e políticas do bairro de Santo António, onde andamos a desenvolver o projeto Equinócios. As Docinhas provocam-nos o pico de glicose a que já nos habituaram com Heroas do Mar, uma performance multidisciplinar que parte da herança do punk português no pós-25 de abril. Numa reflexão sobre uma outra herança, sob forma de património público e humanista, que é a rede de sanitários de Lisboa – grande parte dela atualmente demolida, abandonada ou sujeita a pagamento -, o coletivo Infraestrutura Pública apresenta-nos o livro e exposição homónima Só Os Cães São Livres De Mijar – A história dos sanitários públicos. Sobre outro tipo de ruína, Sofia Soto, artista têxtil e estudante de Design de Moda, apresenta-nos El Boro, fruto da sua investigação sobre a permanência dos resíduos têxteis no Deserto do Atacama como corpos materiais que habitam e transformam o território. E a compor o ramalhete expositivo-instalativo, Guilherme Lourenço debruça-se sobre a transformação da matéria e a manipulação de condições físicas e químicas, nomeadamente a oxidação sobre superfícies metálicas, numa exposição intitulada Threshold. Fechamos o ciclo, o trimestre e o ano com Ti Jácome, Artista no Bairro deste ano, programa que desenvolvemos com os vizinhos Cão Solteiro e Plataforma285.
Pelo meio desta paleta variada, servimos os intermezzo habituais, de frequência gratuita: Aulariolé, Menu de Artista, Paralaxe, Podia ser na Tate mas é aqui e o Cineclube Echoes.
Não somos nem a última bolacha do pacote, nem a última coca-cola do deserto, mas ainda assim, mantenham a insulina por perto. Este ciclo Doce & Fresco propõe o prolongamento de um tempo predominantemente sensorial para deixarmos de fingir que estamos na praia a comer gelados com a testa. Ou seja, para que, com frescura e doçura, possamos continuar a pensar a atualidade e a agir sobre ela.
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