Ciclo
O Futuro Já Começou
Fev 2026 — Mai 2026
Tudo o que existe já começou antes. Apesar do pendor poético desta constatação, ela lembra-nos da responsabilidade inscrita em cada gesto quotidiano. A lata de refrigerante que abrimos hoje pode acabar no mar a destruir ecossistemas. Num único objeto coexistem múltiplas temporalidades: a do gole da bebida, a da sua produção, a da sua transformação no nosso corpo e a da decomposição da lata. Em 2026, a RG6 encontra-se também num cruzamento de tempos. Este ano, que marca o início das obras de melhoria do espaço, a RG6 apresenta-se com uma nova organização, estruturada em três ciclos temáticos anuais e acompanhada por uma publicação gratuita, o OFF_OFF.
O Futuro Já Começou o primeiro destes ciclos, explora a ideia de cruzamentos temporais através de diversas propostas. O tema surge, desde logo, nas exposições Tomorrow, and tomorrow, and tomorrow, do Teatro Praga, um ciclo em que a companhia inaugura seis exposições diárias na última semana de fevereiro. Manifesta-se também nas repetições até ao caos de Futuras Coisas, de Carla Gomes e Valéria Martins; em Murmúrio das Formas, do coletivo MEF, que parte da obra de Edward Weston para especular sobre o presente; e na exposição retrospetiva do trabalho das Toupeiras, apresentado durante dez anos consecutivos na descida da Avenida da Liberdade, no 25 de Abril. A mesma questão atravessa ainda o trabalho site-specific Equinócios, que Tiago Vieira tem vindo a desenvolver ao longo do último ano numa realidade da malha urbana marcada por individualidades e complexidades diversas. Por fim, projeta-se no entendimento do futuro através dos filmes propostos pelo novo cineclube Echoes. São muitas novidades num só trimestre de tanta desgraça!
Porque planear o futuro implica, assim, estar tão atento ao passado quanto viver plenamente o presente, conscientes de que aquilo que fazemos hoje pode repercutir-se noutros lugares e tempos. Poluição? “Não, obrigadoooooo” como cantava a Lena d’Água. Ou, pelo menos, non troppo. Este ecossistema é-nos suficiente. O futuro já começou. Para o continuar, contamos convosco.
>2026
Ciclo
Materiais Desconhecidos
Mai 2026 — Mai 2026
Em 2002, o então secretário da defesa dos EUA afirmou que “existem desconhecidos desconhecidos” (“there are unknown unknowns”), isto é, coisas que não sabemos que não sabemos. Apesar de proferida num contexto bélico e de política externa, a frase continua a ecoar como uma espécie de justificação para ações incompreensíveis que persistem, muitas delas lamentáveis.
No entanto, se deslocarmos a afirmação desse seu enquadramento inicial e se a lermos através de outras lentes críticas, com menos implicações globais e mais abertura especulativa, talvez a possamos resgatar como ferramenta, até para pensar a arte. Nesse sentido, pode contribuir para um processo de desnaturalização das práticas artísticas, libertando-as de expectativas rígidas e finalidades pré-definidas: informar, constatar, fazer o bem, convergir, ou mesmo servir funções unívocas como a ocupação do tempo livre.
É neste contexto que surge o segundo ciclo da Rua das Gaivotas 6, intitulado “Material Desconhecido”.
Aceitar que a arte opera com matérias que desconhecemos e que, muitas vezes, resistimos a conhecer, implica aceitar que o corpo e a identidade ultrapassam o domínio do deliberado e que a realidade não se esgota na sua dimensão física ou visível. Este ciclo propõe, assim, a incorporação, o diálogo e até a invocação de materiais desconhecidos como prática essencial.
A exposição O material não aguenta, de Ska Batista, inaugura este percurso. Trata-se de uma instalação fotográfica que explora os limites entre corpo, identidade, resistência e experimentação visual. Nela encontramos forças invisíveis que também atravessam o espetáculo Chorume, de Natália Mendonça, onde a desidentificação dá lugar a processos de recomposição.
Estas múltiplas materialidades do ser prolongam-se ainda nos espetáculos apresentados no Festival Temps d’Images (um diálogo contínuo com a RG6) como Duas Ratas, de Rafa Jacinto, e Cão de sete patas, de Bibi Dória.
Em sintonia com o ciclo, o Programa VAGABUNDAS — Residências Artísticas Mercedes Blasco levou duas artistas à Mina de S. Domingos (Mértola), onde a relação com o território e a comunidade convocou dimensões invisíveis do corpo. NINFA, de Maria Antunes, investiga o corpo feminino como espaço de poder e autodeterminação. Em pranto. descanso. lamento. descanso, Rita Westwood convoca o ritual das carpideiras como gesto coletivo de recomposição.
A materialidade sonora e visual expande-se igualmente para outros formatos. Com curadoria do Coletivo Casa Amarela, a Rua das Gaivotas 6 transforma-se numa sala de ensaio aberta para o Grupo Coral do Auto-tune, convidando o público a assistir livremente aos processos de criação. Já o Echoes Cineclub (com curadoria de Catarina Portugal, Federico Milan e Ottavia Alloisio Crucitti) inaugura uma colaboração em forma de clube de cinema, apresentando filmes que acompanham indivíduos e comunidades suspensas entre identidades, através de registos e linguagens híbridas.
No entretanto, a exposição das Toupeiras mantém-se no início da temporada, assim como os programas paralelos: Menu de Artista, Podia Ser na Tate Mas É Aqui, Clube Espectador, Déjà Lu, Aularilolé e o novo Clube de Leitura, Paralaxe.
Há sempre mais matéria, muito para além daquilo que conhecemos. Citando os antigos X-Files:
“The truth is out here.”