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Ciclo

Material Desconhecido

Mai 2026 — Jun 2026

Em 2002, o então secretário da defesa dos EUA afirmou que “existem desconhecidos desconhecidos” (“there are unknown unknowns”), isto é, coisas que não sabemos que não sabemos. Apesar de proferida num contexto bélico e de política externa, a frase continua a ecoar como uma espécie de justificação para ações incompreensíveis que persistem, muitas delas lamentáveis.

 

No entanto, se deslocarmos a afirmação desse seu enquadramento inicial e se a lermos através de outras lentes críticas, com menos implicações globais e mais abertura especulativa, talvez a possamos resgatar como ferramenta, até para pensar a arte. Nesse sentido, pode contribuir para um processo de desnaturalização das práticas artísticas, libertando-as de expectativas rígidas e finalidades pré-definidas: informar, constatar, fazer o bem, convergir, ou mesmo servir funções unívocas como a ocupação do tempo livre.

 

É neste contexto que surge o segundo ciclo da Rua das Gaivotas 6, intitulado Material Desconhecido.

 

Aceitar que a arte opera com matérias que desconhecemos e que, muitas vezes, resistimos a conhecer, implica aceitar que o corpo e a identidade ultrapassam o domínio do deliberado e que a realidade não se esgota na sua dimensão física ou visível. Este ciclo propõe, assim, a incorporação, o diálogo e até a invocação de materiais desconhecidos como prática essencial.

 

A exposição o material não aguenta de Ska Batista, inaugura este percurso. Trata-se de uma instalação fotográfica que explora os limites entre corpo, identidade, resistência e experimentação visual. Nela encontramos forças invisíveis que também atravessam o espetáculo Chorume, de Natália Mendonça, onde a desidentificação dá lugar a processos de recomposição.

 

Estas múltiplas materialidades do ser prolongam-se ainda nos espetáculos apresentados no Festival Temps d’Images (um diálogo contínuo com a RG6) como Duas Ratas, de Rafa Jacinto, e Cão de sete patas, de Bibi Dória.

 

Em sintonia com o ciclo, o Programa VAGABUNDAS — Residências Artísticas Mercedes Blasco levou duas artistas à Mina de S. Domingos (Mértola), onde a relação com o território e a comunidade convocou dimensões invisíveis do corpo. NINFA, de Maria Antunes, investiga o corpo feminino como espaço de poder e autodeterminação. Em pranto. descanso. lamento. descanso, Rita Westwood convoca o ritual das carpideiras como gesto coletivo de recomposição.

 

A materialidade sonora e visual expande-se igualmente para outros formatos. Com curadoria do Coletivo Casa Amarela, a Rua das Gaivotas 6 transforma-se numa sala de ensaio aberta para o Grupo Coral do Auto-tune, convidando o público a assistir livremente aos processos de criação. Já o Echoes Cineclub (com curadoria de Catarina Portugal, Federico Milan e Ottavia Alloisio Crucitti) inaugura uma colaboração em forma de clube de cinema, apresentando filmes que acompanham indivíduos e comunidades suspensas entre identidades, através de registos e linguagens híbridas.

 

No entretanto, a exposição das Toupeiras mantém-se no início da temporada, assim como os programas paralelos: Menu de Artista, Podia Ser na Tate Mas É Aqui, Clube Espectador, Déjà Lu, Aularilolé e o novo Clube de Leitura, Paralaxe.

 

Há sempre mais matéria, muito para além daquilo que conhecemos. Citando os antigos X-Files:

 

“The truth is out here.”

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