No campo de refugiados palestinianos de Shatila, no coração de Beirute, o céu só é visível a partir do campo de futebol. É o único espaço ao ar livre num único quilómetro quadrado oficialmente habitado por quase 10.000 pessoas — embora estimativas não oficiais apontem para um número mais próximo dos 22.000. Shatila existe desde 1949, tendo sido criado para acolher palestinianos deslocados pela Nakba, a catástrofe da ocupação israelita de 1948. Ao contrário de qualquer outro estatuto de refugiado no mundo, o deles é herdado: transmitido de geração em geração, sem fim à vista.

 

Em maio de 2023, uma delegação do Centro Storico Lebowski — um clube de futebol autogerido, pertencente aos seus adeptos, vindo de Florença e construído sobre a rejeição radical de um desporto orientado pelo lucro — viaja até Shatila para uma semana de treinos partilhados com os jovens jogadores do Palestinian Youth Club, liderados pelo treinador Majdi, o homem que primeiro reconheceu o futebol como uma ferramenta de emancipação coletiva dentro do campo.

 

Dritti contro il cielo (IT: De frente, contra o céu) não é um filme sobre futebol. Ou melhor, é um filme que utiliza o futebol como linguagem universal para explorar o encontro entre duas comunidades separadas pela geografia, mas unidas por valores: militância de base de um lado, resiliência quotidiana do outro. O realizador Niccolò Falsetti aproxima-se do seu objeto com a distância participativa de um antropólogo — sem sentimentalismo, sem narrativa salvadora. O que a câmara capta é a desconcertante normalidade da vida em Shatila: crianças que atravessam esgotos a céu aberto para chegar ao campo, cabos elétricos que bloqueiam o sol, redes que apanham bolas chutadas demasiado alto em direção à liberdade.

 

E, no entanto, naquele espaço ao ar livre, algo acontece. Os olhares erguem-se. As bolas voam. E, por um breve e essencial momento, a fronteira entre confinamento e liberdade torna-se suficientemente ténue para que algo raro se construa — comunidade.