Trata-se de uma reescrita de A Gaivota de Anton Tchékhov. Parte-se do texto original e escreve-se/compõe-se a partir das questões que dele fazem parte. Aventurar isso de escrever sobre aquelas problemáticas, aquelas figuras, o desassossego que provém de uma qualquer necessidade de relacionar a arte com a vida. Parte-se das questões e adensa-se por outro caminho, como se se esticasse o cordão que Tchékhov primeiramente concebeu. E surge então um texto no qual as palavras do autor/encenador se fundem com as de Tchékhov e, depois, com os corpos que compõe o objeto.
Por fim, torna-se difícil perceber quem fala: de onde vêm aquelas palavras. De que autor. De que corpo. Torna-se difícil detetar quando se está ou não a fazer o texto A ou B, ou mais ainda, a figura A ou B. Onde começa uma e acaba outra. Quem é quem. Ou se estar ali é estar à beira do lago ou estar apenas naquela sala onde está a decorrer a acção/o espectáculo – sem simulacro, sem invocações ou representações. Sem nada no lugar de. A gaivota morta é mesmo só uma gaivota morta. Não há metáfora, nem símbolo. Mas poderemos nós viver sem os símbolos? Sem colocar sobre? Sem construir? Importa isso: questionar. As inquietações que produzem enigmas. O que é isso das novas formas.