Amigos Imaginários é um filme-performance, no qual o público é convidado a assistir à projecção de um filme, em fase de montagem, que é sonorizado ao vivo num estúdio de foley1. Uma especulação sobre o que poderá ser o cinema, tirando partido de um dos artifícios mais utilizados para a construção da ilusão da verdade.

O filme propõe desiludir o espectador, impedindo que este se esqueça da irrealidade e dos truques da magia do cinema, ao fazer crer que tudo é verdade.

Um realizador diletante e três performers não-profissionais do foley fazem do filme uma partitura. Enquanto o gesto dos performers procura de forma literal e obsessiva os ruídos que mexem com as coisas e com os seres do filme, o que vemos é o desmantelar da ilusão, pondo a nu os mecanismos da mentira. O realizador, aproveita-se da oportunidade para jogar com as possibilidades, fazendo experiências com narrações, que oscilam entre o ‘mundo contado’ em pequenas e lúdicas histórias e o ‘mundo comentado’ em desabafos de um montador inquieto.

A natureza das imagens e dos sons constrói-se a partir de uma colecção de anotações, entre o diário e o ficcional, num contraponto entre imagem-filme e imagem-performance. Como num espaço neo-cubista, a verdade é libertada de um automatismo perceptivo, abrindo caminho ao acaso e evocando fantasmas – os amigos imaginários.

[1 O Foley (ou Bruitage) é uma técnica de criação de efeitos sonoros gravados em estúdio, onde sons de passos, portas a fechar, trovões, etc. são reproduzidos por sonoplastas em sincronia com o filme, com o objectivo de conferir mais realismo às cenas.]