Partindo da relação dos homens com os deuses, deuses que observam do alto do Olimpo, do alto da sua condição imortal, as tragédias dos mortais, concentrámo-nos na ideia de ver e de «fazer ver». Tal como Aquiles deseja a eternidade, assim também o homem das cavernas desejou ser observado enquanto imagem eterna: a sua mão nas grutas de Chauvet é a marca da sua percepção de que todos somos efémeros, é a marca que efetiva o espectador de si mesmo no mundo. Ajax reconhece Poseidon pelos pés; hoje, é difícil ver os deuses. Talvez a poesia traga um encontro súbito e concreto de uma evidência, de uma epifania: leite. O divino. Leite. As perguntas de uma rádio disfuncional transformam-se em imagens projectadas de um «Mundo-Poema», num único take de cinema composto por detours de filmes. Mas no teatro tudo está exposto: ação e paixão tornam-se pouco discerníveis e já não se sabe quem vê e quem é visto, quem pinta e quem é pintado.
9 ANOS DEPOIS — Trilogia a partir da Ilíada Parte II
auéééu – Teatro
criação e produção: Auéééu-Teatro
com: Beatriz Brás, Vânia Geraz, Sérgio Coragem, Jean Louis Silva, Joana Manaças, Filipe Velez, Miguel Cunha e João Santos
piano: Tiago Velez
apoio à cenografia: Rosana Pereira
cartaz_ Filipe Andrade
Foto © Salvador de Almeida Fernandes, in 'Lisboa de Antigamente.' / Palácio Alarcão [c. 1952]
auéééu – Teatro
A companhia auéééu – Teatro foi fundada no dia 13 de maio de 2014 e é constituída por um grupo de oito atores – nascidos entre os anos de 1982 e 1993 – licenciados em 2014 pela ESTC. O grupo, cujas origens geográficas são diversas, ambiciona estruturar um programa coletivo de criação teatral, com vista a desenvolver uma dramaturgia de autoria própria baseada no diálogo entre pensadores e criadores provenientes de vários ramos do saber, no cruzamento de linguagens artísticas e na apropriação das linguagens nãoartísticas. Esta companhia pretende pensar a criação em coletivo, na qual se vão reorganizando os lugares de decisão e onde se valoriza a diferença. Procura também desenhar territórios de encontro através do que se pode chamar «corpo sensível», um corpo que sente e pensa enquanto escreve; consciente desse jogo cénico, utiliza o real dentro da ficção e a ficção dentro do real.
Após o exercício final da licenciatura, intitulado Falta Tinta Vermelha, o grupo decidiu dar continuidade ao seu trabalho, apresentando este espetáculo em contexto profissional. Nos anos seguintes, o grupo apresentou o espetáculo Tradição, tendo vindo a integrar mais tarde o Ciclo RecémNascidos’16 no TNDMII. Iniciou, em 2016, com o grupo de dança Espaço Neutro, uma criação a partir da Ilíada, de Homero, que deu origem à primeira parte da trilogia 9 Anos Depois. A segunda parte, já sem a colaboração do Espaço Neutro, foi apresentada em 2017 e obteve o apoio à circulação por parte da Fundação GDA, tendo vindo a ser realizada em 2018. Estreia agora o seu mais recente espetáculo – Um Passo Atrás, depois de um processo no qual se inserem residências ao longo do país e um Ciclo de Inúteis Conversas, organizado na Livraria Ferin.
Projectos
— 9 ANOS DEPOIS — Trilogia a partir da Ilíada Parte II — (2017)
— Tradição — (2017)
— Um Passo Atrás — (2019)