Escolhe trazer ‘(DES)PROTEGIDOS’ livra da sua autoria, por ser uma obra que parte da experiência pessoal que reflete a masculinidade, consentimento, trauma e intimidade entre homens: temas que considerados pelo próprio urgentes, e pouco discutidos a partir das vivências de homens negros queer.

 

“Há alguns anos, fui vítima de abuso sexual.
Não era criança.
Era adulto.
Homem.
E foi justamente isso que tornou tudo mais difícil de dizer. A ideia de que “isso não podia acontecer comigo” é o veneno que sustenta o silêncio. A masculinidade ensina-nos a ser impenetráveis, inalcançáveis, inteiros. Mas a verdade é que todos sangramos; e é nesse ponto de ruptura que o teatro começa. (DES)PROTEGIDOS nasce da insistência em existir num mundo que tenta tornar certos corpos ilegíveis. Escrito a partir do corpo (e contra tudo o que tentou silenciá-lo), o texto articula violência e desejo, masculinidade e fragilidade imposta, silêncio e sobrevivência. A experiência do abuso sexual entre homens atravessa a obra não apenas como confissão, mas como possibilidade de transgressão do silêncio que a masculinidade demanda. Aqui, a escrita recusa a ideia de corpos impenetráveis e inteiros, afirmando a desproteção como lugar de fala e a ternura como o início de uma cura coletiva.”

—David J. Amado